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O que a embalagem tem a ver com a catástrofe do Rio Grande do Sul?

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Diante das inundações no Sul do país, especialista em embalagens propõe reflexão sobre o consumo

Por Ricardo Marques Sastre*

O ponto de partida é observar as estatísticas que revelam que três das quatro maiores enchentes do Rio Grande do Sul ocorreram nos últimos nove meses. A primeira grande enchente aconteceu em 1941 e virou lenda entre os gaúchos. Na ocasião, inundou uma boa parte do centro de Porto Alegre (RS) e alguns campos na zona norte antes de virarem bairros populosos, além de praias de água doce na região sul da capital que hoje configuram-se como zonas residenciais. O intervalo entre a primeira e a segunda enchente foi de 83 anos, mas entre a terceira e a quarta é de apenas oito meses.

É mais fácil pensar que tudo isso é obra do acaso e que o universo está conspirando contra o povo gaúcho ao aplicar este castigo severo. O caminho mais difícil é aceitar a realidade sobre as mudanças climáticas no planeta. Deixar de acumular bens de consumo e parar de gastar em excesso é um sacrifício muito grande. O desperdício e a falta de necessidade só são percebidos quando aparecem inutilizados, boiando dentro das casas inundadas. Economizar os recursos naturais só é válido quando não temos alternativa. Descartar resíduos sólidos misturados com resíduos orgânicos ainda é uma realidade na maioria das cidades e só será viável enquanto houver incineração ou aterro sanitário, herança deixada pelo modelo de consumo linear. Em um passe de mágica tudo se resolve, é só fechar o saco de lixo e tirá-lo do alcance dos olhos.

Quando os níveis das águas baixarem, a cidade e as pessoas terão que buscar forças para se reorganizarem. A maioria das habitações serão reconstruídas e mobiliadas e onde irá parar todo esse resíduo inutilizado pelas águas contaminadas? Quem dará conta de recolher e destinar para reciclagem? A natureza absorverá esse grande volume de coisas sem deixar rastro?

Vamos imaginar que a sua cidade está com todos os acessos fechados e não tem mais como escoar o resíduo e nem receber mantimentos. Como você faria para sobreviver? Essa é a realidade de muitos municípios do Rio Grande do Sul nestes primeiros dias de tormenta. Os supermercados começam a revelar o fundo das suas prateleiras e as embalagens começam a se mudar das gôndolas para os containers de lixo localizados nas zonas mais altas da cidade. Nas regiões atingidas pela enchente, tudo o que a água alcançou desapareceu. Espero que as redes de lojas que estão abastecendo a população devolvam parte dos seus lucros para auxiliar nesta retomada lenta e dolorosa.

Nas proximidades da enchente, o cenário é devastador. As pessoas estão sem saber o que fazer ao verem parentes e amigos desaparecerem ou perderem suas casas ou suas empresas, construídas através da doação de uma boa parte do tempo de suas vidas. Nos bairros mais afastados, percebe-se a tentativa de levar uma vida normal e uma impressão de que nada está acontecendo, até começar a faltar água nas torneiras, luz e principalmente sinal de internet. O prefeito comentou “saiam da cidade enquanto é tempo”, deixem os recursos escassos ainda disponíveis para as pessoas que não tem para onde ir ou para os que necessitam permanecer por motivos profissionais ligados a assistência aos desabrigados. Parem de gastar o desnecessário. Redobrem a atenção nas ruas pois existem golpistas e saqueadores se aproveitando da situação.

É muito difícil para o modelo atual consolidado pensar em otimizar recursos e reduzir o consumo enquanto ele está disponível. É como o fenômeno do pacote de biscoitos na gaveta do escritório, enquanto ele estiver ali, será consumido até acabar, mesmo sem a necessidade de sobrevivência, apenas por ansiedade. Muitos países enfrentam sérios problemas com a falta de abastecimento básico para sua população. A água que molha os lindos jardins poderia garantir a sobrevivência de muitas crianças ao redor do planeta. Este fato não é nenhuma novidade, mas ainda não é encarado como prioridade, bem como os reflexos que estão sendo causados pelo impacto ambiental no planeta.

Este exercício de refletir e voltar para a verdadeira essência do ser humano é muito dolorido, pois nos acostumamos muito fácil com o conforto que a vida moderna nos proporciona. É convidativo consumir e transferir para os artefatos e para os alimentos condimentados todas as nossas frustrações do dia a dia. A pandemia nos ensinou muito pouco. Na primeira oportunidade de sair para rua, voltamos a consumir desenfreadamente. O planeta respirou um pouco melhor enquanto estávamos vivendo de maneira contida, por que não continuamos?

As embalagens são importantes para a circulação de alimentos e bens de consumo no planeta. Nos momentos mais difíceis, como esta tragédia que atinge o Rio Grande do Sul, elas estão ali através de garrafas, ampolas ou pacotes, dando suporte para os necessitados que chegam de todos os cantos alagados.

De uma maneira geral, o desperdício é desnecessário, mas isto só é percebido quando sentimos falta de necessidades básicas para sobreviver. Desejo profundamente que após mais essa tragédia, repensemos sobre as nossas atitudes, que tenhamos tempo para aprender, contemplar e refletir sobre a essência da vida e que tenhamos ações efetivas, deixando de lado os créditos e as siglas.

Precisamos encarar o problema, olhar para o lixo que geramos, reduzir o consumo de tudo, evitar desperdícios, desenvolver artefatos úteis pensando da matéria-prima ao resíduo. Espero que os projetos de embalagem priorizem a sua relação com o ser humano e com o planeta e que sirvam de suporte para auxiliar a humanidade em seu desenvolvimento, sem deixar rastros ou reflexos que possam causar mais catástrofes pelo mundo. A crise climática é anunciada pelos povos originários desde sempre, vamos escutá-los!


**As opiniões expressas e os dados apresentados em artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento dos editores do Conecta Verde.

 

Conteúdo por:

Ricardo Marques Sastre*

*Publicitário; especialista em expressão gráfica e gestão empresarial; mestre em design; doutor em engenharia de produção e pós-doutor em design sustentável; pesquisador; consultor; escritor; professor universitário; diretor na Mudrá Design e soma 27 anos de experiência no mercado de embalagens.

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