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Conecta Verde Pocket Class - 19-10-23

Delivery na pandemia: mais pedidos e mais embalagens. E o impacto ambiental?

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Texto: Elen Nunes / Edição: Flavius Deliberalli

 

Não é de hoje que os serviços de delivery caíram nas graças dos consumidores. Com a pandemia, o simples ato de pedir comida em casa se transformou: de uma casualidade na semana ou fim de semana para uma rotina extremamente necessária e que afetou a maior parte das famílias brasileiras.

Segundo a Mobills, startup de gestão de finanças pessoais, que analisou as despesas dos usuários com os três principais aplicativos de entregas (RappiiFood e Uber Eats), os gastos com delivery cresceram 149% no último ano.

Diante desse expressivo aumento e da tendência desse número seguir aumentando, a questão ambiental, que já era amplamente debatida, ganhou muitos novos capítulos. Há mais embalagens em circulação? Sem dúvidas. E o descarte? As cidades se prepararam para esse aumento de embalagens circulando? O consumidor, que anda mais atento à essa questão, fez a sua parte? E as empresas de entrega, fabricantes de embalagens e restaurantes? Fizeram a sua parte?

De acordo com o relatório The Economist’s Sustainability Week 2021, da Grow From Knowledge (GFK), 53% dos consumidores globais acreditam nas reivindicações ambientais nas embalagens de produtos e nas publicidades das empresas. Entretanto, o estudo aponta também que as marcas precisam ter um discurso verdadeiro para realmente obter credibilidade sobre o tema.


Mudar é preciso
Aqui no Brasil, as urgências com o planeta impulsionaram toda a cadeia de entregas a se movimentar, e não foi diferente com as plataformas, como no caso do iFood, foodtech que ocupa as posições de liderança líder na América Latina. A empresa alcançou a marca de mais de 270 mil restaurantes na plataforma no mês de março de 2021 em todo Brasil, sendo que mais de 110 mil restaurantes ingressaram na plataforma nos últimos 12 meses. Segundo a empresa, esse movimento foi reflexo do avanço tecnológico e da grande transformação digital nos hábitos de consumo, o que permitiu que milhares de estabelecimentos ganhassem fôlego e se reinventassem em meio à crise gerada pela pandemia. O iFood saltou de 30 milhões de pedidos mensais em março de 2020 para 60 milhões de pedidos em março de 2021. Desse total, 16 milhões vêm de restaurantes cadastrados há um ano no aplicativo.

O iFood explica também que antes mesmo da pandemia já tinha compromissos com a sustentabilidade e que no início de 2021 anunciou o iFood Regenera, programa de metas ambientais da plataforma que contempla diversos compromissos sustentáveis, com ações voltadas também para embalagens. Entre as metas consta se tornar uma empresa carbono neutro, com 50% das entregas sendo realizadas por modais não poluentes e a eliminação de poluição plástica das operações até 2025. “Ainda não existe uma bala de prata que seja ao mesmo tempo sustentável e acessível economicamente. As embalagens fazem parte do negócio de delivery e, por isso, também temos atuado no pós consumo que é o final da cadeia. Um dos desafios é como essa embalagem vai ser descartada. Hoje, no Brasil, apenas 3% do resíduo é reciclado. Para aumentar a taxa de reciclagem, é necessário atuar em todas as etapas do processo: educação ambiental dos consumidores para que separem corretamente os resíduos, aumentar a quantidade e distribuição dos pontos de coleta, melhorar a qualidade dos resíduos que chegam às cooperativas e apoiar e investir para aumentar a produtividade de cooperativas”, explica Gustavo Vitti , vice-presidente de Pessoas e Sustentabilidade do iFood.

Gustavo Vitti, do iFood (Crédito da imagem: Midori De Lucca)

O plástico é predominante entre as embalagens, principalmente no delivery. Segundo Vitti, o programa de redução de plásticos tem como objetivo: evitar o uso do plástico, encontrar novas soluções de embalagens e reciclar o que circula. Recentemente, o iFood assinou um compromisso público para reduzir os plásticos descartáveis em suas entregas de comida com a campanha #DeLivreDePlástico, organizada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), uma das principais autoridades ambientais no sistema das Nações Unidas (ONU), e pela Oceana, ONG focada na proteção dos oceanos no mundo.

Outra iniciativa relevante é a campanha com o selo “Amigo da Natureza”, que reconhece boas práticas ambientais dos restaurantes cadastrados na plataforma. Hoje, para ativar a campanha, o restaurante precisa ter a opção para que os usuários possam escolher não receber talheres plásticos e outros itens descartáveis dentro do seu cardápio digital. “É um imenso desafio no qual estamos focados e também envolvendo a sociedade. A grande aceitação de restaurantes como parceiros da campanha ‘Amigos da Natureza’, demonstra como o consumidor está atento às questões sustentáveis e aceitando ‘recusar’ plástico e contribuir para essa causa. Continuamos em busca de soluções sustentáveis, que atendam ao consumidor e sejam viáveis economicamente para nossos parceiros restaurantes. Enquanto não encontramos uma solução ideal, seguimos realizando muitos investimentos na reciclagem”, ressalta.

O iFood informou ainda que vem buscando alternativas de embalagens sustentáveis para o meio ambiente e viáveis para restaurantes e consumidores. Tanto é que em parceria com a Suzano, lançou o desafio “Embalagens do Futuro”, que tem como objetivo desenvolver embalagens sustentáveis para o setor de entrega de refeições.

A iniciativa também reforça um dos compromissos da Suzano, uma das maiores fabricantes de papéis da América Latina, em oferecer, até 2030, 10 milhões de toneladas de produtos de origem renovável, desenvolvidos a partir da biomassa de eucalipto, para substituir plásticos e outros derivados do petróleo. “Nesta parceria, nós iremos unir o conhecimento do ecossistema de delivery do iFood à inovabilidade da Suzano, que é a inovação a serviço da sustentabilidade, no desenvolvimento de soluções biodegradáveis”, afirma Guilherme Melhado, diretor comercial da Unidade de Papel e Embalagem da Suzano. “Com isso, esperamos renovar o mercado de entregas em direção a um futuro melhor e sustentável, a partir de embalagens mais funcionais e amigáveis ao meio ambiente”, completa.

De fato a indústria também se move para atender a urgente pauta ambiental e o consumidor mais informado com essa questão. Fabricantes de embalagens perceberam a relevância para a marca e a necessidade de produzir de forma diferenciada, minimizando o impacto no meio ambiente, principalmente diante de materiais de uso único.

A Scuadra, empresa especializada em embalagens de delivery para comida, entendeu esse novo contexto. Até pouco tempo atrás, as embalagens para comida se restringiam ao isopor, plástico e marmitex de alumínio. Diante disso, a empresa, se posicionou na direção contrária: com foco na sustentabilidade e utilizando matérias-primas renováveis. “Desde o início da Scuadra, há quatro anos e meio, quando tive uma experiência negativa com um pedido de delivery e fui pesquisar sobre embalagens e idealizei algo diferente, que fizesse sentido para o novo momento. Recentemente, esta demanda aumentou, principalmente com exigências legais, como por exemplo, a Lei que proíbe o uso de plásticos para delivery de comida na cidade de São Paulo. Além da pandemia, que obrigou bares e restaurantes a atuarem somente no delivery, o próprio setor de alimentação também tem dado preferência à empresas que se importam com o conceito de ESG, principalmente no que tange a parte sustentável de seus recursos e matérias-primas”, resume Luiz Silveira, CEO da Scuadra Embalagens.

 

 

Luiz Silveira, da Scuadra Embalagens

As embalagens da Scuadra são cartonadas (de papel), recicláveis e, segundo a empresa, oferecem segurança e temperatura adequada para a viagem dos pratos de restaurantes altamente renomados da capital paulista, além de estrutura e design modernos, que agregam valor à experiência de quem recebe. A empresa também conta que clientes que até então não utilizavam aplicativos de entrega, mas que com a pandemia precisaram abraçar esta nova oportunidade, puderam contar com a embalagem da Scuadra como apresentação de seus produtos. “Hoje se fala muito em economia circular. A gente tem que pensar como nós vamos utilizar melhor os recursos para evitar consumo de energia, consumo de água e fazer o melhor aproveitamento da matéria-prima. Eu enxergo a embalagem de papel como a mais sustentável, porque ela vem de uma fonte renovável. Trabalhamos com os três maiores fabricantes de papel do Brasil, todos com selo FSC, e nossa escolha, ainda pela segurança do planeta, é ficar com as embalagens recicláveis”, afirma Silveira.

Exemplo de embalagem da Scuadra

Inovação também é alternativa de solução para uma demanda que só cresce, como é o caso da Já Fui Mandioca, startup de tecnologia com foco em biopolímeros de mandioca, que se inspirou na natureza para criar soluções ambientais que embalam o produto gerando impacto positivo. Ou seja, quando descartada, ela se transforma em algo positivo para o meio ambiente, como por exemplo um insumo para uma nova fruta ou planta, atendendo assim o ciclo de economia circular. “A gente se inspirou nesse ciclo justamente para embalagens de consumo imediato. A gente acredita que pra você tomar um sorvete que vai derreter em menos de trinta minutos, não faz o menor sentido usar um pote que vai demorar centenas de anos pra se decompor. Nessas embalagens de uso único, para alimentação e etc, que é o nosso foco, a gente acha que tem materiais mais interessantes e mais inteligentes para esse tipo de aplicação”, explica Stelvio Mazza, CEO da Já Fui Mandioca.

De acordo com Mazza, a mandioca já é um insumo altamente usado na indústria têxtil e na indústria de adesivos, e por isso a empresa entendeu que ela tinha propriedades interessantes. Outras características importantes são: o aspecto social, pois normalmente quem planta mandioca são pequenos agricultores; a policultura, o que é uma questão ambiental interessante; a distribuição em todo o Brasil e em diversas partes do mundo; uso da fécula de mandioca brava, que é um tipo de mandioca que não serve para alimentação, além de ser a única raiz (amido) que tem propriedades físicas ou químicas que possibilitam o processo industrial completamente novo que a empresa desenvolveu. “Para nós, o material mais inteligente não é aquele que gera menos lixo, mas aquele que não gera lixo. Então, pensando em economia circular, a gente usa mandioca, que vira uma bioembalagem, que vira terra, que vira uma mandioca, bioembalagem e assim infinitamente. Essa é nossa proposta”, revela entusiasmado.

Stelvio Mazza, da Já Fui Mandioca

Para inovar e começar do zero, a empresa afirma encontrar grandes desafios como estabelecer um processo industrial sem parâmetros anteriores, criar tecnologia para larga escala, desenvolver a embalagem que atenda a necessidade e fazer o mercado e o consumidor entenderem o real diferencial sustentável da solução. “Nenhuma tecnologia ou causa cresce sozinha. Quanto mais pessoas apoiarem e divulgarem esse tipo de iniciativa, mais estabelecimentos vão adotando e assim o preço vai caindo. Fomentar empresas brasileiras, com tecnologia brasileira, sem importação, é uma necessidade de mudança de comportamento de todos, desde o consumidor final que tem uma voz importantíssima, até as grandes empresas”, considera Mazza.

A Já Fui Mandioca possui em seu catálogo soluções em embalagens que viram adubo a partir de 15 a 20 dias no jardim de casa e se dissolvem com a água da chuva. Tem sido escolhida como fornecedora de restaurantes veganos, vegetarianos, sorveterias naturais, restaurantes comuns e até grandes empresas, que entendam a causa ambiental como um propósito, nichos que procuram embalagens que agregam valor por uma causa e/ou conceito.

Embalagem compostável da Já Fui Mandioca

Escolhas mais sustentáveis dos consumidores e, consequentemente, dos estabelecimentos é uma demanda real dessa década. Pessoas e marcas com propostas e propósitos mais naturais reforçam o que não é mais considerado uma tendência e sim uma real mudança de comportamento da sociedade. Esta é a proposta da Green Kitchen, cozinha digital 100% vegana e porta de entrada dos produtos do Grupo Planta aos consumidores, tudo 100% à base de plantas. A empresa considera que é necessário entender que saúde vai além do corpo e que estamos vivendo um momento em que a transformação de hábitos dos nossos consumos são emergenciais, considerando hábitos alimentares e escolhas em geral. “Trabalhamos com diversos fornecedores de embalagens. As embalagens para delivery, talheres descartáveis e canudos de papel são biodegradáveis. Os talheres, por exemplo, são compostos por 70% de amido de milho e 30% de bagaço de cana compostável. Já as embalagens que transportam o Mac and chese e a feijoada vegana, por exemplo, são feitas com bagaço vegetal, 100% compostável. Nossas sacolas são de papel kraft, material compostável”, destaca Fabio Zukerman, fundador da Green Kitchen.

Fabio Zukerman, da Green Kitchen (Crédito da imagem: Divulgação)

Ao observar empresas se movimentarem no sentido de serem mais responsáveis em suas cadeias de valor (plataformas de delivery, fabricante de embalagens, empresas de tecnologia, estabelecimentos comerciais), ou seja, quando todo um sistema se move para se transformar, temos a expectativa de estar saindo do lugar romântico da sustentabilidade para o prático e efetivo. É certo que estamos engatinhando e todos podemos fazer muito mais, mas há um começo e não pode haver retrocesso, só avanços. O planeta está no limite e o consumidor está atento, buscando por marcas mais transparentes e produtos que gerem identificação, pertencimento. Propósitos movem o novo consumo.

Embalagem da Green Kitchen (Crédito Imagem: Vinícius Bicudo)
Conteúdo por:
Elen Nunes

Elen Nunes

Jornalista, editora e criadora do Conecta Verde

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