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Circularidade e inovação pautam o mercado de aerossóis

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Em linha com o crescimento na produção de embalagens, entidade que representa o setor aposta em atuação abrangente e respaldo técnico para superar desafios e limitações regulatórias que impactam no avanço da reciclagem

Por Elen Nunes / Editado por Flavius Deliberalli

Em ciclo de crescimento e com o Brasil ocupando posição de destaque no mercado mundial, o setor de aerossóis vem trabalhando para implementar ações e iniciativas que visam ampliar as taxas de reciclagem e a circularidade desse tipo de embalagem.

Em entrevista exclusiva, Alyne Freitas, presidente da Associação Brasileira de Aerossóis (ABAS), destaca o panorama do setor e as diversas frentes de atuação da entidade.

Leia agora:

1- Qual é o panorama atual da reciclagem de embalagens de aerossóis no Brasil?
O Brasil consolidou-se como um importante ator no mercado global de aerossóis, ocupando atualmente a quarta posição mundial, com mais de 1,4 bilhão de unidades produzidas em 2023. Esse volume representa a geração de cerca de 40 mil toneladas de embalagens pós-consumo compostas majoritariamente por folha de flandres (aço) e alumínio — dois materiais com alto valor na cadeia da reciclagem e, mais relevante ainda, infinitamente recicláveis. Ou seja, não perdem qualidade durante os ciclos de reaproveitamento e não apresentam barreiras técnicas à sua reintrodução na cadeia produtiva.

A reciclagem desses materiais, além de ambientalmente benéfica, é energeticamente vantajosa: a reutilização pode economizar até 90% da energia necessária para a fabricação de novas embalagens a partir de matérias-primas virgens. Isso reforça a importância de investir em modelos de circularidade que valorizem o reaproveitamento das embalagens de aerossol no pós-consumo.

Atualmente, com exceção do Estado de São Paulo, os aerossóis podem ser descartados e reciclados junto a outros materiais metálicos em todo o território nacional. Em São Paulo, no entanto, vigora desde 2021 um Termo de Compromisso assinado entre a CETESB e a ABAS, e também a Decisão de Diretoria nº 051/2024/P (que substitui a anterior 127/2021/P), que classifica as embalagens de aerossol pós-consumo como resíduos perigosos. Essa classificação impõe um fluxo segregado de logística reversa — com descarte exclusivo em pontos de entrega voluntária, transporte especializado e processamento por empresas credenciadas para descaracterização do produto e aproveitamento dos componentes.


2- Quais são os principais entraves técnicos, regulatórios ou logísticos enfrentados hoje e o que a entidade vem fazendo para solucionar?
Durante os dois primeiros anos de tentativa de implementação do fluxo segregado em São Paulo, foram identificadas barreiras significativas que comprometeram a viabilidade do modelo. O engajamento do consumidor mostrou-se baixo, o custo operacional elevadíssimo — cerca de 200 vezes superior a programas convencionais de logística reversa — e a complexidade logística impõe dificuldades técnicas, inclusive do ponto de vista da segurança operacional.

Paradoxalmente, concentrar grandes volumes de embalagens pós-consumo contendo resíduos inflamáveis pode gerar riscos superiores àqueles observados no modelo tradicional de coleta junto a outros metais. Estudos técnicos indicam que a diluição dessas embalagens (que representam em média de 5% a 8% do volume de materiais metálicos nas centrais de triagem) é mais segura do que o armazenamento isolado em massa.

Diante disso, a ABAS estruturou uma ampla frente técnica, com base em mais de dez estudos científicos e documentos regulatórios internacionais compartilhados pelas associações americana (CSPA), britânica (BAMA), francesa (CFA) e pela Federação Europeia de Aerossóis (FEA). Em âmbito nacional, a ABAS, em parceria com quatro entidades estratégicas com histórico consolidado em programas de logística reversa, como a Associação Brasileira de Embalagem de Aço (ABEAÇO), Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (ABIPLA) e Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (ABRAFATI), coordenou a realização do primeiro estudo técnico-científico sobre o tema, conduzido pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) ao longo de 12 meses e finalizado em 2025.

Como resultado dessa mobilização técnico-institucional, foi obtida em novembro de 2024 uma importante vitória: a reclassificação das embalagens vazias de aerossol como resíduos não perigosos, conforme os critérios da norma ABNT NBR 10004-1 e 2. Essa reclassificação abre caminho para modelos mais viáveis de gestão pós-consumo, baseados em evidência técnica e alinhados às práticas internacionais de circularidade.


“A reciclagem desses materiais, além de ambientalmente benéfica, é energeticamente vantajosa: a reutilização pode economizar até 90% da energia necessária para a fabricação de novas embalagens a partir de matérias-primas virgens”


3- Como o Brasil se compara com outros países quando falamos em circularidade para aerossóis?
Há uma disparidade significativa entre os níveis de maturidade regulatória e estrutural dos países. Na Europa e nos Estados Unidos, a discussão sobre circularidade em aerossóis é pautada há mais de três décadas. A França, por exemplo, possui uma taxa superior a 90% de reciclagem das embalagens colocadas no mercado. Os Estados Unidos, maior produtor mundial, com mais de 4 bilhões de aerossóis anuais, equivalentes a cerca de 300 mil toneladas de material, estabeleceram metas públicas ambiciosas: aceitação de 85% dos aerossóis nas centrais mecanizadas e 90% das embalagens com orientações padronizadas de descarte.

Por outro lado, há regiões — inclusive desenvolvidas — que ainda classificam os aerossóis como resíduos perigosos, mas não disponibilizam soluções eficazes de reaproveitamento. Na América Latina, o Brasil vem se consolidando como referência técnica e institucional no tema, atuando como protagonista na construção de conhecimento, elaboração de diretrizes e articulação entre os elos da cadeia.

4- A ABAS tem acompanhado ou liderado iniciativas-piloto em parceria com a cadeia de reciclagem? Pode citar exemplos?
A ABAS acompanha e reconhece iniciativas relevantes conduzidas por empresas do setor, que oferece incentivos para o retorno de embalagens vazias (incluindo aerossóis), destinando-as às cooperativas. Também existem projetos educativos em articulação com prefeituras regionais. Contudo, a ABAS optou por concentrar seus esforços na estruturação técnica do tema, especialmente em São Paulo, buscando viabilizar um modelo que possa ser replicado em nível nacional com sustentabilidade operacional e escalabilidade.

“Como resultado dessa mobilização técnico-institucional, foi obtida em novembro de 2024 uma importante vitória: a reclassificação das embalagens vazias de aerossol como resíduos não perigosos”

 

5- Existe algum mapeamento feito pela entidade sobre cooperativas que aceitam os aerossóis?
Sim. Como parte integrante do estudo técnico conduzido pelo Cetea, foi realizado um mapeamento das cooperativas do Estado de São Paulo quanto à aceitação de aerossóis. Os resultados não foram divulgados, mas já demonstram sinais bastante promissores quanto à aceitação por parte das cooperativas.

6- O consumidor final ainda tem receio ou desconhecimento sobre o descarte correto de aerossóis. O que a entidade vem fazendo no sentido de educar e conscientizar o consumidor?
Sim, e isso ficou evidente também no estudo do Cetea. O aprofundamento do tema da reciclagem de aerossóis ainda é recente até mesmo dentro do próprio setor. Portanto, qualquer iniciativa voltada ao consumidor precisa ser baseada em diretrizes seguras e claras.

Uma das propostas do grupo de associações que a ABAS faz parte é justamente o lançamento de uma campanha nacional de educação e conscientização, com linguagem acessível e foco na segurança, circularidade e valorização da embalagem metálica. Mesmo nos países mais avançados, a educação do consumidor é um dos pilares centrais para o sucesso de qualquer sistema de reciclagem.

“Há uma disparidade significativa entre os níveis de maturidade regulatória e estrutural dos países. Na Europa e nos Estados Unidos, a discussão sobre circularidade em aerossóis é pautada há mais de três décadas”

 

7- Quais são os erros mais comuns que ocorrem no descarte doméstico desses produtos?
O erro mais grave é o descarte no lixo comum, o que inviabiliza a reciclagem e alimenta um ciclo de vulnerabilidade social, especialmente em lixões. Em segundo lugar, muitos consumidores não esvaziam totalmente a embalagem antes do descarte, o que pode representar risco e dificultar o reaproveitamento. O ideal é garantir o esvaziamento completo e, sempre que possível, remover e destinar corretamente a tampa plástica.

8- Existem novas tecnologias sendo desenvolvidas (ou já utilizadas fora do Brasil) para facilitar o reaproveitamento das embalagens de aerossol?
Existem e o setor vive um momento de intensa inovação, impulsionado por soluções que reforçam a circularidade e otimizam o reaproveitamento das embalagens.

Antes de apresentar as novidades tecnológicas, é importante reiterar que os principais materiais que compõem os aerossóis — o alumínio e o aço — já contam com tecnologias consolidadas para reciclagem ilimitada após o descarte. São materiais que mantêm suas propriedades mesmo após sucessivos ciclos de reaproveitamento, o que os posiciona como elementos estratégicos dentro da economia circular.

Complementando esse cenário, surgem inovações que ampliam ainda mais as possibilidades do setor. Um exemplo promissor é a startup húngara Respray Solutions, que apresentou no ABAS AWARDS 2024 a primeira estação de refil em loja para aerossóis — voltada inicialmente para desodorantes em spray. O sistema combina latas recarregáveis acionadas por ar comprimido com totens de recarga instalados em drogarias e supermercados. A proposta opera no modelo white label, atendendo diversas marcas interessadas em oferecer versões sustentáveis de seus produtos. A solução reduz significativamente a geração de resíduos de alumínio, diminui as emissões de CO₂ e promove o engajamento direto do consumidor com a economia circular.

Outra inovação de destaque é a SprayPET Revolution, da Plastipak, apresentada no ADF Paris 2025. Trata-se de uma embalagem 100% plástica, sem componentes metálicos, e totalmente reciclável nos fluxos convencionais de PET. Essa solução representa um avanço importante ao facilitar a triagem e o reaproveitamento em diferentes contextos de infraestrutura de reciclagem.

 

“Qualquer iniciativa voltada ao consumidor precisa ser baseada em diretrizes seguras e claras”

 

9- É possível pensar em redesign de produto ou em materiais alternativos mais fáceis de reciclar?
As embalagens metálicas (aço e alumínio) já apresentam alta performance em termos de reciclabilidade, com vantagens claras em durabilidade e eficiência energética. Ainda assim, a indústria vem investindo na redução de peso da embalagem, aumento do teor de PCR e desenvolvimento de componentes mais sustentáveis.

Na ADF 2025, por exemplo, foi apresentada a primeira tampa 100% em papel/papelão para aerossóis, desenvolvida pela Koehler Paper + Wimbee, ampliando as possibilidades de substituição de plásticos e aprimorando a compostabilidade de partes do sistema de embalagem.

10- Como a ABAS tem atuado para inserir o tema da circularidade nas pautas regulatórias e de responsabilidade compartilhada?
A ABAS tem priorizado a construção de conhecimento técnico como base para posicionamentos regulatórios consistentes. Por representar toda a cadeia do aerossol — válvulas, latas, tampas, matérias-primas, envasadores e marcas de múltiplos setores — a associação ocupa posição estratégica para articular soluções integradas e viáveis de responsabilidade compartilhada.

“O erro mais grave é o descarte no lixo comum, o que inviabiliza a reciclagem e alimenta um ciclo de vulnerabilidade social, especialmente em lixões. Em segundo lugar, muitos consumidores não esvaziam totalmente a embalagem antes do descarte, o que pode representar risco e dificultar o reaproveitamento”

 

11- Qual a visão da ABAS sobre o papel da indústria usuária de aerossóis nessa transformação?
A indústria usuária tem um papel central. Observamos avanços relevantes nas práticas ESG, com foco em energia renovável, eficiência energética, inovação em embalagens e produtos mais naturais. Mas o engajamento com a pauta de pós-consumo é fundamental para ampliar a circularidade no Brasil. É essa união entre inovação, comprometimento e diálogo setorial que viabilizará um modelo sustentável, escalável e reconhecido internacionalmente.

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