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TC 100: um projeto inédito de economia circular no Brasil

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Marcos Iorio revela detalhes do projeto em entrevista exclusiva

Por Elen Nunes / Editado por Flavius Deliberalli

Já pensou num território 100% circular, onde todos os materiais e embalagens de papel, vidro, alumínio, metais e plásticos não serão mais enviados para aterros sanitários e sim transformados, reaproveitados e reciclados? Essa é a proposta do TC 100, um projeto de impacto que visa transformar Telêmaco Borba (PR) nesse território 100% circular.

O TC 100 se apresenta como um dos maiores experimentos socioambientais em processo no Brasil, uma vez que ao proporem soluções, os envolvidos estão entendendo durante o processo as formas possíveis de como implementá-las. Um desafio de aprendizado diário que desde sua concepção já efetuou uma série de medições inéditas e relevantes para toda a cadeia de embalagens no Brasil. E quem nos conta tudo sobre este projeto, detalhadamente, é Marcos Iorio, diretor executivo do HUB Incríveis, rede de inovação criativa e de impacto, que coordena o projeto ao lado de empresas como Klabin e Heineken.

Conheça mais sobre esta iniciativa que em breve deve se tornar modelo para outras cidades aumentarem a reciclagem de seus resíduos sólidos.

1-Explica para a gente o que é o TC 100 e como surgiu a ideia desse projeto?
Mesmo com alto investimento de todos os setores (governo, ONGs e empresas), o resultado da implementação de um modelo de economia circular de embalagens no Brasil, se comparados às maiores referências globais, ainda apresenta resultados aquém do desejado. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi desenhada em 2010 e teve como um de seus objetivos a obrigatoriedade de se compartilhar a responsabilidade pela geração e destinação de resíduos de embalagens. O plano foi materializado por meio de um acordo setorial para a reciclagem, em 2015, tendo como meta a comprovação da reciclagem de 22% dos materiais de embalagem colocados no mercado pelos produtores. Porém, mesmo doze anos após a promulgação da PNRS, o país ainda trabalha para alcançar a meta, crescendo 0,5% ao ano.
Em 2019, um primeiro encontro facilitou a conversa entre 28 organizações e seus 52 representantes. Marcas, indústria, ONGs, agências de design e partes interessadas do ecossistema tentaram responder: como destravar a agenda da economia circular de embalagens? Deste encontro, uma das iniciativas foi criar um HUB onde discussões setoriais e caminhos possíveis pudessem ser discutidos em rede, construindo um ecossistema. Assim nasce o HUB Incríveis, que carrega essa pergunta como missão. Seus verbos de ação para concretizar o seu propósito são:
DESCOBRIR: levantar dados existentes e inexistentes, gerando insights que formulem possíveis razões para que a agenda da economia circular de embalagens seja acelerada;
PROPOR: caminhos que possam solucionar os problemas levantados no processo de descoberta;
PROTOTIPAR: as soluções possíveis, em pequena escala, seguindo a filosofia do “lean startup” e “fail fast”, validando solução e contexto
para a circularidade;
COMUNICAR: às partes interessadas e sociedade em geral as descobertas e índice de sucesso na tentativa de resolução destes problemas e possíveis caminhos a serem seguidos.

No HUB Incríveis sempre pensamos em como podemos inovar. Com isso, fizemos a pergunta: o acordo setorial propõe uma comprovação da reciclagem de 22% do material, mas e os outros 78%? Muito se planeja, pensa, executa e, realmente, existem muitas empresas sérias e organizadas buscando arduamente o caminho de atendimento da PNRS. Porém, esse é somente o primeiro passo, que ainda não conseguimos atingir. Então, por que não conseguimos atingir nem a primeira meta? Quem está pensando no nosso futuro?

Após refletir sobre essas perguntas, nos colocamos em projetos, comitês e conselhos do HUB Incríveis,  pensando nas potenciais respostas para transformá-las em hipóteses, e percebemos duas afirmações recorrentes:
– no Brasil, não é possível atingir essas metas, pois sua dimensão é grande demais e a logística é impossível;
– como não temos um bom desenvolvimento humano, não conseguimos avançar nessas metas.

A partir dessas perguntas e afirmações, surgiu o projeto Território Circular 100% em embalagens (TC 100), buscando entender qual é o potencial máximo de circularidade de um território controlado.

Nesse território, analisado como um país, podemos:
– fazer importações e exportações, entender o seu balanço de massa de resíduos de embalagens;
– validar o problema logístico, e se o desenvolvimento humano é realmente o grande problema, ou se existem outros fatores, como o contexto de funcionamento deste mercado e falta de políticas públicas aplicáveis.

Optamos, então,  por selecionar um território e prototipar um case que pudesse inspirar e construir métodos para gerir melhor o impacto futuro, sem deixar de olhar para o todo, do volume às micro inovações necessárias para uma economia circular completa, pensando na mitigação do impacto negativo e potencialização do impacto positivo.

O projeto TC 100 nos traz uma reflexão sobre o potencial máximo de circularidade para embalagens em Telêmaco Borba, no Paraná, um território escolhido para criarmos soluções para a economia circular.

O objetivo é construir um espaço para prototipação real, que apresente as dificuldades e permita expandir as possibilidades de soluções por meio de negócios e/ou de políticas públicas. No final, queremos ter um case nacional do território mais circular possível. Entendendo os limites e potenciais de inovação focados no impacto, mas não somente para construir uma narrativa e promover atenção ao tema, o que é muito válido, mas que acreditamos não ser suficiente. Este é apenas o primeiro território, onde Klabin e Heineken abraçaram a causa e patrocinaram a iniciativa.

2-Como e por que Telêmaco Borba foi a cidade escolhida?
Quando pensamos em prototipar um território inteiro ao mesmo tempo, criando um parque de inovação circular sinérgico, colaborativo, consideramos todas as forças trabalhando em conjunto como poder público: universidades, empresas, marcas e ONGs. Estudamos 20 locais e decidimos por Telêmaco Borba (PR) por uma série de razões. Dentre elas, o município estava com seu aterro sanitário em fim de vida e um novo aterro estava sendo negociado dentro do consórcio de sete municípios. Essa era uma oportunidade de repensarmos o modelo de descarte para essa região, já que o aterro sanitário é símbolo do fim do ciclo de vida de uma embalagem pensada para economia linear. Outro fato importante é que a cidade tem 80 mil habitantes, uma cidade nem tão pequena, que não consigamos massa crítica para alguns materiais de algumas cadeias de valor, nem tão grande que nos ofereça uma complexidade de gestão na prototipagem, uma vez que precisamos contar com prefeitura, empresas e associações locais. O tamanho de Telêmaco Borba (PR) corresponde a muitos municípios do Brasil que necessitarão de projetos estruturantes para economia circular muito diferentes de megacidades como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) ou Salvador (BA), por exemplo. As soluções são típicas para este tipo de cidade que precisa trabalhar em uma conformação de consórcio entre os municípios vizinhos. Telêmaco Borba (PR) está isolada de outros centros urbanos como Curitiba (PR), então poderíamos medir fluxos de materiais sem tantas interferências de entradas de outros lugares. Por exemplo, no caminho das descobertas na primeira fase, encontramos que Ponta Grossa (PR) recebe quase todo material reciclado de Telêmaco Borba (PR). Se os protótipos passassem em Ponta Grossa (PR), que tem uma grande ligação com Curitiba (PR), teríamos que entender de onde viriam os materiais de Telêmaco Borba (PR). O município também adotou a implementação do indicador IPS (índice de progresso social), onde poderíamos, ao longo do tempo, medir se algum impacto do TC 100 causou benefícios no progresso social uma vez que a gestão de resíduos e coleta seletiva fazem parte dessa medição. A cidade possui uma prefeitura aberta a este movimento, e a operação fabril de uma empresa muito preocupada com as questões de impactos socioambiental, a Klabin, uma das maiores produtoras e exportadoras de papéis para embalagens e de soluções sustentáveis em embalagens de papel do Brasil, que foi estratégica ao nos auxiliar no encontro dos caminhos de parcerias e pessoas na cidade e implementou o Programa de Resíduos Sólidos, que realizou um trabalho de fortalecimento das cooperativas do município, com o desenvolvimento das lideranças e melhora da logística e da eficiência produtiva.

Fotos da Análise Gravimétrica - Raio-x do Lixo

3-O que você acredita que é preciso fazer para que um território deixe de descartar as embalagens de forma incorreta? Quais são os principais desafios?
Quando terminamos a primeira fase de diagnóstico, percebemos algumas questões que precisavam ser resolvidas:

– educação ambiental em todas as instâncias (nas escolas, nos comércios e nas indústrias locais);

– fortalecimento da cooperativa local não apenas como um centro de recebimento de resíduos da coleta seletiva, mas também torná-la protagonista e gestora de resíduos recicláveis na cidade, sempre passando pelas pessoas que trabalham na cooperativa;

– alguns materiais não conseguem ser coletados no volume suficiente para gerar logísticas até a indústria da reciclagem, que pode ficar a quilômetros de distância. Para isso, precisávamos ativar uma rede que incluísse as cooperativas dos municípios vizinhos, de modo para que elas trabalhassem com seus volumes em conjunto.

Aumentar a eficiência da coleta seletiva e segregação dentro de casa, pode ser alcançada através de muitas abordagens diferentes: desde o gamification dentro de condomínios, até o pagamento pelos recicláveis levados até um supermercado. Nesse caso, precisávamos aumentar a quantidade de oportunidades dos munícipes encontrarem locais para o descarte correto, que faziam ligações com esses fluxos de reciclagem. Então, incluir pontos de entrega voluntários e gratificados (lugares onde você recebe algo em troca do seu material) também fizeram parte da nossa proposta.

Hoje sabemos que 85% da logística reversa é feita primariamente por catadores autônomos. Existe uma estimativa que antes da pandemia existiam 800.000 a 1 milhão de catadores no Brasil. Com a crise gerada pela pandemia, muitas pessoas se viram obrigadas a ir buscar materiais para garantir, inclusive, a segurança alimentar. Existem estimativas de até 4 milhões de pessoas nesse serviço informal atualmente. Formalizar os catadores, bancarizá-los, e garantir melhores condições de trabalho, é imprescindível para que a economia circular no Brasil seja um sonho possível. Esse é um dos temas que também estamos trabalhando.

Muitas empresas já contam com seus programas de logística reversa, mas eles estão focados para grandes cidades, então incentivamos as empresas para que disponibilizem esses programas nesse nosso parque de inovação circular. Assim, podemos entender os impactos de uma embalagem de reuso ou campanhas de coleta seletiva das marcas, ou até conexões da indústria com a cooperativa, garantindo melhores preços e renda aos cooperados e impactando na sustentabilidade desse negócio.

Assim, sentimos que não poderíamos focar em um tema apenas, mas sim buscar várias iniciativas implementadas trabalhando em conjunto e ao mesmo tempo. É comum discutirmos que em uma complexidade tão grande para resolver as questões do lixo não encontraremos nenhuma bala de prata, e sim a necessidade de combinarmos estratégias de acordo com o contexto, afinal o lixo é um erro de design que só os humanos conceberam.


4-Dá um panorama pra gente do que já aconteceu até aqui no TC 100 e quais são os próximos passos?
Na fase dois, fizemos uma chamada pública para soluções dessas temáticas comentadas. Não tínhamos ideia de quantas startups estavam trabalhando esses temas, já que há um grande interesse por fintechs e empresas de tecnologia. Ficamos felizes em ver que 100 startups se inscreveram e destas, metade conseguiu resolver diretamente alguma das temáticas levantadas em Telêmaco Borba (PR). Selecionamos 12 propostas que resolvem as questões do diagnóstico, e agora estamos num período de captação de recursos para viabilizar a implementação desses protótipos para funcionar por dez meses. Sabemos que é um investimento de baixo risco e com altíssimas chances de aprendermos o que devemos fazer para resolver questões do lixo. Isso já está gerando exposição positiva para todos os nossos parceiros e patrocinadores. Via de regra, estamos todos esperando que encontremos soluções para este tipo de questão. No momento, estamos viabilizando a fase três, que é a de prototipagem em campo. Fazemos a coordenação com os patrocinadores, a prefeitura local, outras startups e ONGs atuantes para implementarmos este processo de inovação no segundo semestre. Uma vez que conquistarmos o engajamento da população, começaremos a colher dados sobre estratégias que estão funcionando ou o que devemos fazer para que elas funcionem. Serão dez meses de gestão de projeto em modo real, para concluirmos quais dessas soluções se perpetuarão na cidade enquanto medimos o índice de circularidade de embalagens aumentando. Queremos conectar o máximo de atores a este projeto-experimento.


5-Nesse atual momento do projeto, o que o TC 100 mais precisa para alcançar seus objetivos e poder ser aplicada em outras cidades do Brasil?
Como todo o projeto de inovação, o TC 100 vai abraçando as incertezas e incorporando as soluções no método. Nosso foco agora é captar patrocínio das marcas realmente interessadas em destravar a agenda da economia circular (incluindo todos os Rs- reciclar, reduzir, repensar, recusar e reutilizar) para que juntos, edifiquemos esse projeto estruturante. Esta próxima fase servirá de aprendizado sobre como fazer campanhas, como ser transparente com números, quanta adicionalidade de materiais cada estratégia retorna, quanto engajamento podemos conseguir nas escolas, e por aí vai. Ela é a prova de todo o planejamento e estudo que fizemos antes de executar as soluções. Precisamos da abertura das empresas para acoplar suas soluções em uma grande convocatória. O Brasil pode e deve dar show ao resolver seus problemas. Temos capital intelectual, tecnologias disruptivas e uma grande aptidão para a engenharia social. O TC 100 é o palco para testarmos tudo isso junto e partirmos para a construção de novos parques de soluções circulares em novos territórios. Um pedido para as marcas: patrocinem o HUB Incríveis para que possamos continuar trazendo novas questões para a circularidade.

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