Empresa destaca que novos projetos de embalagem contemplam a redução de material, o uso de matérias-primas renováveis ou recicladas e a reciclabilidade, entre outros aspectos
Por Elen Nunes / Editado por Flavius Deliberalli
Ser reconhecida não somente como uma das maiores fabricantes de cosméticos do país, mas também por sua atuação ambiental através de ações relacionadas à preservação do meio ambiente, desenvolvimento de produtos, redução de resíduos e ações para superar as dificuldades que envolvem a cadeia de reciclagem.
Em entrevista exclusiva, Luiz Campos, gerente de sustentabilidade e embalagens da Natura, detalha as ações aplicadas, metas e os objetivos da empresa para manter-se como referência em sustentabilidade.
Confira agora:
1- A Natura é amplamente reconhecida por seu pioneirismo e consistência em sustentabilidade. Como essa visão tem guiado, na prática, as decisões mais recentes relacionadas às embalagens?
A sustentabilidade sempre esteve no centro da estratégia da Natura e orienta decisões de produto, cadeia de suprimentos e inovação. No caso das embalagens, isso se traduz em uma abordagem de ecodesign, que considera todo o ciclo de vida do produto, desde a origem das matérias-primas até o descarte ou reinserção no sistema produtivo.
Na prática, isso significa que novos projetos de embalagem passam por critérios como redução de material, uso de matérias-primas renováveis ou recicladas, reciclabilidade e incentivo à reutilização, além da avaliação da pegada de carbono. Essa lógica orienta tanto o desenvolvimento de novas linhas quanto a reformulação de embalagens existentes.
Nos últimos anos, a companhia também tem aprofundado a visão de
circularidade, buscando desenhar embalagens que permaneçam em uso pelo maior tempo possível, reduzindo a dependência de recursos virgens e ampliando a integração com cadeias de reciclagem.
2- Considerando essa trajetória, quais foram as principais evoluções em embalagens nos últimos anos para reduzir impacto ambiental e ampliar a reciclabilidade?
Nos últimos anos, avançamos em diferentes frentes estruturais:
– redução de material e redesign de embalagens: diversos produtos passaram por processos de “lightweighting”, com diminuição do peso das embalagens sem comprometer desempenho ou segurança;
– ampliação do uso de refis: o sistema de refil, pioneiro no setor de
cosméticos no Brasil, continua sendo expandido para novas categorias, permitindo que o consumidor reutilize a embalagem principal;
– uso crescente de materiais reciclados: a companhia tem ampliado a incorporação de plástico reciclado pós-consumo (PCR) em suas
embalagens;
– materiais renováveis: a Natura também foi pioneira no uso de plástico verde derivado da cana-de-açúcar, reduzindo a dependência de resinas fósseis;
– design para reciclagem: cada vez mais as embalagens são desenvolvidas para facilitar a separação de componentes e a reciclabilidade nos sistemas disponíveis.
Essas iniciativas fazem parte de metas corporativas mais amplas de
circularidade e descarbonização.
3- Ao longo desse processo, quais aprendizados se destacam ao equilibrar inovação, viabilidade técnica e custo?
Ao longo dessa trajetória, um dos principais aprendizados da Natura é que a inovação em embalagens sustentáveis precisa ser pensada de forma sistêmica. Isso significa integrar critérios de sustentabilidade desde as etapas iniciais de desenvolvimento de produto, considerando simultaneamente desempenho, impacto ambiental, viabilidade técnica e acessibilidade ao consumidor. Um exemplo prático desse desafio está na seleção de materiais. Sempre almejamos introduzir o máximo possível de resina reciclada (PCR) ou materiais renováveis (como o PE Verde) em cada componente. Durante o desenvolvimento, nosso papel é encontrar o equilíbrio técnico ideal para cada peça, ajustando as porcentagens desses materiais para garantir a melhor sinergia entre o menor impacto ambiental, a estética premium da marca, a eficiência de custo e o
desempenho mecânico.
Também ficou claro que avanços relevantes dependem de colaboração ao longo de toda a cadeia, envolvendo fornecedores de materiais, indústria de reciclagem, pesquisadores e parceiros logísticos. Outro ponto importante é o ganho de escala: muitas soluções sustentáveis se tornam economicamente mais viáveis à medida que são incorporadas de forma mais ampla ao portfólio. Por fim, a experiência mostra que inovação em embalagens também exige diálogo com o consumidor, para que novas soluções, como refis ou materiais reciclados, sejam compreendidas e adotadas no dia a dia.

“novos projetos de embalagem passam por critérios como redução de material, uso de matérias-primas renováveis ou recicladas, reciclabilidade e incentivo à reutilização, além da avaliação da pegada de carbono”
4- A marca possui iniciativas emblemáticas, como o uso de refis. Quais linhas ou produtos vocês destacariam como cases relevantes de evolução sustentável em embalagens?
O sistema de refis é uma das iniciativas mais emblemáticas da Natura, iniciada de forma pioneira em 1983, e representa um dos pilares da estratégia de redução de impacto das embalagens. Ao permitir que o consumidor reutilize a embalagem original e substitua apenas o conteúdo, o modelo reduz significativamente o consumo de matéria-prima e a geração de resíduos. Em alguns casos, o refil pode representar uma redução de até cerca de 80% no uso de material em comparação à embalagem regular.
A sustentabilidade e economia circular estão presentes em diversas linhas do portfólio. Temos exemplos como o lançamento de refil para os Séruns concentrados de Chronos e Renew; Ekos Ryos, com a tampa feita com PP PCR retirado dos rios da Amazônia; Tododia Cabelos, no qual implementamos os primeiros frascos em PE 100% PCR no portfólio. Essas linhas incorporam soluções de ecodesign como o uso de materiais reciclados, renováveis e projetos que priorizam eficiência de material, reforçando a visão de circularidade da empresa.
5- A incorporação de material reciclado é um desafio relevante no setor. Quais avanços a Natura já alcançou nesse sentido e quais barreiras ainda precisam ser superadas?
A Natura tem avançado de forma consistente na incorporação de plástico reciclado pós-consumo em suas embalagens, ampliando progressivamente a presença desse material em diferentes categorias de produtos. Para se ter ideia, começamos a introdução de PCR em 2007 e em 2016 já tínhamos frascos com 100% PCR no portfólio. Também fomos pioneiros no uso de plástico de origem renovável, produzido a partir da cana-de-açúcar, que ajuda a reduzir a dependência de resinas fósseis. Ainda assim, existem desafios estruturais importantes no Brasil, especialmente relacionados à disponibilidade de resinas recicladas com qualidade e volume suficientes para atender às demandas industriais e impactar, inclusive, decisões de marketing, considerando o apelo da embalagem na nossa indústria. A infraestrutura de coleta seletiva e triagem também apresenta limitações em muitas regiões do país. Por isso, além de avançar no design das próprias embalagens, a Natura entende que é fundamental contribuir para o fortalecimento da cadeia de reciclagem como um todo.
6- Em um cenário onde a reciclagem no Brasil ainda enfrenta limitações, como a Natura atua para fortalecer a cadeia, especialmente na parceria com cooperativas?
A Natura atua há muitos anos no fortalecimento da cadeia de reciclagem no Brasil, reconhecendo o papel central das cooperativas de catadores nesse sistema. A empresa desenvolve iniciativas que incluem apoio estrutural, capacitação e parcerias voltadas à profissionalização dessas organizações, contribuindo para melhorar as condições de trabalho e ampliar a eficiência na coleta e triagem de materiais recicláveis. É importante mencionar que por meio do programa Elos, auditamos toda a cadeia de materiais reciclados para a certificação no programa, algo que fortalece essa jornada. Além disso, participamos de iniciativas setoriais e projetos colaborativos que buscam ampliar a infraestrutura de reciclagem e aumentar a recuperação de materiais pós-consumo. Esse trabalho contribui não apenas para a circularidade das embalagens, mas também para a geração de renda e inclusão socioeconômica de milhares de trabalhadores que atuam nessa cadeia.
“o refil pode representar uma redução de até cerca de 80% no uso de material em comparação à embalagem regular”
7- Vocês poderiam compartilhar alguns indicadores ou números atuais que traduzam os avanços da marca na redução de impacto das embalagens?
Ao longo das últimas décadas, a Natura tem desenvolvido uma série de indicadores para monitorar e orientar a evolução de suas embalagens em direção a modelos mais circulares. Entre os avanços mais relevantes estão a ampla presença de refis em diversas categorias do portfólio, o aumento progressivo do uso de plástico reciclado pós-consumo e a adoção de plástico de origem renovável derivado da cana-de-açúcar.
A companhia também tem investido continuamente na redução do peso de embalagens por meio de redesign e na ampliação da reciclabilidade dos materiais utilizados. Esses esforços fazem parte de metas corporativas mais amplas de circularidade e descarbonização, que buscam reduzir o impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos.
Hoje, cerca de 86% das embalagens da companhia já são reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis, dentro da meta de chegar a 100% até 2030. Outro indicador importante é o avanço no uso de plástico reciclado pós-consumo: na operação do grupo Natura na América Latina, a participação desse material nas embalagens chegou a cerca de 20%, refletindo investimentos em cadeias de reciclagem e parcerias com cooperativas. Além disso, o modelo de refil – pioneiro na companhia desde os anos 1980 – evita milhares de toneladas de resíduos todos os anos, contribuindo para eliminar aproximadamente 3 mil toneladas de plástico e cerca de 6 mil toneladas de emissões de carbono anualmente. Esses avanços fazem parte da estratégia de circularidade da companhia, que também prevê que 50% do plástico das embalagens tenha conteúdo reciclado até 2030.
8- Como a logística reversa está estruturada hoje dentro da Natura e quais são os próximos passos para evolução dessa frente?
A logística reversa na Natura é estruturada por meio de uma combinação de iniciativas próprias e parcerias setoriais. A empresa participa de sistemas coletivos voltados à recuperação de embalagens pós-consumo e desenvolve projetos em parceria com cooperativas e organizações da cadeia de reciclagem para ampliar a coleta e
destinação adequada desses materiais. Além disso, o design das embalagens tem sido cada vez mais orientado para facilitar a reciclabilidade e a reinserção dos materiais no ciclo produtivo. Os próximos passos incluem ampliar a escala dessas iniciativas, fortalecer a rastreabilidade dos materiais e continuar integrando estratégias de design circular com o desenvolvimento da infraestrutura de reciclagem no país.
9- A comunicação com o consumidor é um ponto-chave. Como traduzir temas complexos como circularidade e reciclabilidade de forma clara e efetiva? E, na percepção de vocês, o consumidor já compreende esse papel?
A Natura entende que a comunicação com o consumidor é essencial para que as soluções de circularidade gerem impacto real. Por isso, busca traduzir temas complexos em mensagens práticas e acessíveis, incentivando comportamentos como a escolha por refis, a reutilização de embalagens e o descarte correto dos materiais. A transparência sobre os materiais utilizados e sobre os avanços da marca também faz parte dessa estratégia.
Como parte desse compromisso com a integridade da informação, disponibilizamos aos times de Desenvolvimento de Embalagens um manual de claims ambientais. O documento orienta quais mensagens são recomendadas para cada tipo de projeto – seja ele focado em refil, uso de plástico reciclado (PCR), materiais renováveis ou reciclabilidade. Este manual está totalmente alinhado a guidelines nacionais e internacionais, visando deixar a informação mais clara para o consumidor e evitar possíveis interpretações e greenwashing.
Nos últimos anos, é possível perceber um aumento significativo do interesse dos consumidores por temas ambientais e por produtos com menor impacto. Ainda assim, o nível de compreensão sobre reciclagem e circularidade pode variar bastante, o que reforça a importância de investir continuamente em educação e informação clara.
“A infraestrutura de coleta seletiva e triagem também apresenta limitações em muitas regiões do país. Por isso, além de avançar no design das próprias embalagens, a Natura entende que é fundamental contribuir para o fortalecimento da cadeia de reciclagem como um todo”
10- A Natura vem se posicionando como uma marca regenerativa. Como esse conceito se materializa na estratégia de embalagens e como ele se sustenta em um contexto onde a circularidade ainda avança de forma gradual no Brasil?
Para a Natura, o conceito de regeneração significa ir além da redução de impactos negativos e de gerar impactos positivos para a natureza e para a sociedade. No campo das embalagens, isso se traduz na busca por soluções que combinem redução de material, uso de matérias-primas recicladas e renováveis e fortalecimento da cadeia de reciclagem. A estratégia também considera o papel das embalagens dentro de uma agenda mais ampla de descarbonização e circularidade. Esse compromisso está refletido em metas públicas de longo prazo. Dentro da Visão 2025–2050 da companhia, a Natura estabeleceu, por exemplo, que até 2030 todas as embalagens deverão ser reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis, além da meta de alcançar 50% de conteúdo reciclado no plástico utilizado nas embalagens. Já no horizonte de 2050, a ambição é que 100% dos plásticos utilizados no portfólio tenham origem renovável e sejam totalmente compostáveis, impulsionando um modelo de materiais compatível com a economia circular.
Um exemplo prático dessa visão de futuro é o aporte feito na Mango Materials, uma startup de biotecnologia que transforma metano (um dos gases de efeito estufa mais nocivos) em polímeros biodegradáveis (PHA). Esse investimento reforça o papel da Natura em fomentar soluções que não apenas substituem o plástico virgem de origem fóssil, mas que utilizam gases poluentes como recurso para criar embalagens que retornam com segurança à natureza. Embora a infraestrutura de reciclagem ainda avance de forma gradual no Brasil, iniciativas empresariais como essas ajudam a impulsionar transformações no setor, estimulando inovação, ampliando escala e promovendo colaboração entre diferentes atores da cadeia produtiva, de fornecedores e cooperativas a empresas e consumidores.
























