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A força do design na geração de valor para a cadeia pós-consumo

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É essencial que, no momento da criação de um produto, a embalagem seja planejada com o objetivo de garantir a circularidade do material


Por Fabio Sant’Ana*

Diferente do que muitos imaginam, a reciclabilidade de uma embalagem não começa no momento do descarte, mas sim durante o seu desenvolvimento. E tão importante quanto seguir os padrões de qualidade, para garantir proteção ao produto e deixá-lo atrativo ao consumidor, é planejar a geração de valor do material para a cadeia pós-consumo. Isso significa criar uma embalagem que possa ser reciclada, garantindo assim a sua circularidade na economia. Esse pensamento pode até parecer óbvio. No entanto, não é. O tema ainda mostra-se bastante desafiador e precisa ser discutido na sociedade, nas empresas e no poder público.

A preocupação na embalagem ter valor para a cadeia pós-consumo é algo que gera valor não somente para as cooperativas de reciclagem, mas para a economia brasileira como um todo. E isso porque a circularidade dos materiais eleva a capacidade das pequenas e médias empresas aumentarem sua renda, tanto por meio da venda dos materiais reciclados quanto pela redução do rejeito enviado aos aterros sanitários (que gera ainda custos para municípios ou cooperativas). Contudo, estruturar o trabalho nas diferentes etapas da reciclagem não é nada simples.

Imagine uma fábrica que receba os insumos misturados, sujos, com grandes variações e parte deles não possa ser utilizado no processo. Exato, este é o cenário da maioria das cooperativas de reciclagem no Brasil. Diante disso, os profissionais acabam perdendo tempo, produtividade e, consequentemente, renda. É um modelo onde todos envolvidos perdem com essa falta de aproveitamento.

No Brasil, o perfil dos resíduos descartados corresponde, em média, a 50% de materiais orgânicos (como restos de alimentos), 30% de recicláveis (papel, plástico, metal e vidro) e 20% de rejeitos (resíduos que não podem ser reciclados), segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). E, afunilando para o universo das embalagens, foram mapeados pela associação 34 tipos de materiais que podem ser reutilizados, considerando papel, plástico, metal e vidro.

Tal retrato torna o trabalho das cooperativas muito desafiador. Digo isso, pois dificilmente elas conseguirão fazer 34 tipos diferentes de separação, já que estrutura e equipe precisariam ser mais robustas, o que ainda não é uma realidade no nosso país. Além disso, muitas vezes os materiais não chegam nas cooperativas em quantidades suficientes para valer a pena ter uma segregação tão específica e detalhada.

Outro ponto é o desafio na identificação de cada variante reciclável neste universo tão amplo. Isso porque muitas embalagens não trazem a correta descrição do tipo de material e algumas misturas também dificultam na identificação, o que muitas vezes torna inviável saber com precisão seu tipo. E a decisão de coletar ou deixar para rejeito precisa ser tomada de forma rápida e assertiva para garantir a produtividade no processo das cooperativas.

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, de 2023, idealizado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), o melhor cenário de reciclagem está nas regiões Sul e Sudeste, com mais de 70% dos resíduos sólidos sendo destinados corretamente. Já no Norte e Nordeste do país, 36,6% e 37,3% dos rejeitos, respectivamente, não são enviados para aterros. No Centro-Oeste, o manejo adequado do lixo soma 43,6%. E estes são números fundamentais para entender que a cadeia inteira, da produção ao descarte, passando pelas empresas e consumidores, precisa ser melhorada e bem estruturada para tais valores serem mais positivos.


A importância do design para a circularidade
A complexidade do trabalho nas cooperativas aumenta na questão que nem todas as embalagens, conforme analisamos aqui, podem ser recicladas – seja porque não foram planejadas para isso ou por estarem contaminadas. Os cooperados não fazem somente a separação do que pode ou não ser reaproveitado. Eles realizam uma verdadeira curadoria, onde observam o que chega, levando em conta se os materiais possuem valor de mercado da forma que estão, se precisam de algum processo de desmontagem ou se existem misturas que inviabilizarão sua reciclagem e, consequentemente, não terão valor.

Temos identificado que, em média, 15% do que chega na cooperativa vai para os aterros sanitários. Mas o problema é que tal número pode alcançar 60% dependendo da situação dos materiais. Uma situação muito difícil economicamente falando. E é neste ponto que reafirmo o design como um agregador de possibilidades para a economia circular. As embalagens precisam, sim, garantir proteção aos produtos, viabilidade técnica industrial, além de serem atrativas para o consumidor e eficiente no uso. Porém, é essencial que, no momento da criação de um produto, a embalagem seja planejada com o objetivo de garantir a circularidade do material, gerando valor para a cadeia pós-consumo.

Trago aqui um exemplo: ao pensarmos em uma embalagem de iogurte desenhada para a circularidade, temos a oportunidade de criar uma solução com menor impacto ambiental possível e que entrega todos os requisitos técnicos de produção e conservação do alimento. E, adicionalmente, após seu descarte, é possível pensar na venda do material pela cooperativa por um bom valor. Enquanto o mesmo recipiente, se não projetado com este olhar, pode até vir a ter impacto ambiental semelhante, mas, se não tiver um valor de venda na cooperativa, será destinado ao rejeito e, consequentemente, ao aterro sanitário – um destino que ainda acarretará custos de frete para cooperativas ou munícipios. São cenários muito diferentes, certo?

Vou tentar traduzir em números este impacto. Imagine uma empresa que produz 500 mil embalagens de iogurte por mês e com peso de 25 gramas cada. No primeiro cenário a embalagem vale até R$ 3,50/kg na cadeia pós consumo e, no segundo cenário, ela não possui valor e é destinada ao rejeito. Se tivermos o segundo cenário, é possível pensar na perda para a cadeia pós-consumo de pelo menos R$ 43 mil. E, considerando que no rejeito ainda incidirá o custo de aterro e o frete até lá, o impacto será ainda maior. Outra questão é que quem paga esta conta será a cooperativa ou o município, ou seja, neste caso, os cidadãos por meio dos impostos.

O recomendado é que o processo inteiro seja muito bem planejado, desde a criação da embalagem até o momento da reciclagem, contemplando os dois stakeholders principais: brand owners e agentes públicos. Dessa forma, os primeiros se engajam e se preocupam cada vez mais com a questão do design, assumindo para si a responsabilidade de colocar no mercado produtos recicláveis; e, os agentes públicos, passam a assumir responsabilidade por aumentar a abrangência do sistema de coleta seletiva.

E é importante ressaltar ainda que o design, com olhar sistêmico e foco na circularidade, contribui neste processo, pois traz boas soluções desde o início dos trabalhos, de modo a gerar mais valor para a cadeia pós-consumo. Além disso, para essa mudança acontecer de forma efetiva, precisamos engajar o consumidor. Embalagens circulares não podem entregar apenas mais sustentabilidade e serem mais circulares. Elas devem também trazer boas experiências de uso para que sejam adotadas e, se possível, terem atributos que influenciem o consumidor a ter uma jornada mais consciente.


**As opiniões expressas e os dados apresentados em artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento dos editores do Conecta Verde.

Conteúdo por:

Fabio Sant’Ana

*Especialista em Desenvolvimento de Mercado e Novos Negócios do Cazoolo.

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