Se por um lado o mercado de consumo cria tendência, por outro, nem sempre esse movimento corre na direção correta
Por Ricardo Sastre*
É comum observarmos as empresas orientando suas decisões estratégicas baseada no comportamento do consumidor. Poucas empresas, como a Apple por exemplo, seguiram o caminho contrário em desenvolver soluções que a humanidade não fazia ideia de que poderiam ser criadas. Hoje nos tornamos dependentes de aplicativos, smartphones, computadores portáteis com inúmeros recursos e até relógios que se permitirmos, tomam conta das nossas vidas.
Excluindo as raras exceções, a maioria das empresas se orientam através das necessidades de consumo dos seus clientes. Pesquisas de mercado sofisticadas e observação direta no ponto-de-venda retornam com insights importantes para auxiliar no direcionamento de novos produtos, ações de marketing e até mesmo uma mudança radical em um modelo de negócio.
Sem venda as empresas não se mantêm no mercado e a sua intensidade definirá o crescimento ou declínio. Em muitos casos, tornam-se reféns de seus próprios clientes. Afinal, “o cliente tem sempre razão”.
Se por um lado o mercado de consumo cria tendência, por outro, nem sempre esse movimento corre na direção correta. Produtos industrializados com excesso de ingredientes que ao longo prazo prejudicam a nossa saúde não parece ser um bom caminho. Os sistemas de saúde e as farmácias servem de testemunha. As filas nos hospitais estão cada vez maiores e a cada piscada de olho surge uma nova farmácia, virou até piada nas redes sociais.
O consumo de drogas lícitas ou ilícitas sempre foram desafiadores para a sociedade, criam dependência, prejudicam a saúde e o convívio humano. Os sites de apostas eletrônicas é o problema do momento. O governo tenta fazer a sua parte exigindo informações visíveis nas embalagens, criando mecanismos que inibem o consumo, assim como as empresas, o comportamento do consumidor é mandatório. Se há demanda, a venda acontece, mesmo em se tratando de jogos de azar.
Outro fator a ser observado, além da preservação da saúde é a preservação do planeta. Voltamos ao comportamento do consumidor. Uma categoria de produtos como os refrigerantes oferecem ao mercado o mesmo líquido (com excesso de ingredientes que ao longo prazo prejudicam a nossa saúde), em diversas porções e embalagens, desenvolvidas para atender os mais variados hábitos de consumo. As porções variam de 200ml a até tamanho família, acima de 2 litros. Podem vir em embalagens plásticas, metálicas e de vidro; com bicos anatômicos para serem consumidas na hora ou formatos maiores para serem compartilhados.
Todas essas variações foram pensadas para atender os hábitos de consumo. Eventualmente atendem alguma necessidade especial, limitação de produção ou redução de custos. Se o consumidor é o rei e se comporta mal, a tendência é continuar aumentando o problema de saúde e impacto ambiental.
O ser humano está na natureza como parte integrante, o impacto acaba sendo o mesmo. A diferença é que cuidar do planeta é um problema coletivo, e a saúde, cada um cuida da sua. O ponto de partida é sempre o mesmo, a natureza humana.
Façamos uma lista de alimentos e produtos estritamente necessários para a sobrevivência no planeta. Agora reajustamos as quantidades e em paralelo uma ampliação da flexibilidade no consumo (nem sempre o pão estará quentinho). Feito isso, quantos itens poderiam ser dispensados e quanto reduziríamos de desperdícios, evitando o excesso de consumo e o descarte, principalmente os produtos perecíveis?
Uma garrafa plástica de 2 litros utiliza entre 40 e 50 gramas de material e uma garrafa de 200ml em torno de 8 a 10 gramas. Para uma porção de 2 litros, utilizaríamos de 80 a 100 gramas de material em garrafas de 200ml, exatamente o dobro em relação a uma única garrafa maior, sem contar o gasto energético, logístico, dentre outros.
Se a opção em embalar líquidos gasosos em garrafas menores foi a partir do foco nos consumidores, seja por praticidade, manutenção do gás ou resfriamento, o que sobrará para o planeta? A conta não fecha.
Diante dos hábitos de consumo, seja por conveniência ou atributos emocionais, o desafio é inverter as prioridades. É preciso insistir, orientar melhor, restringir comportamentos abusivos e não ter disponível no mercado produtos e embalagens que não considerem a preservação da natureza como um todo. A mudança de comportamento é um desafio, começa de dentro para fora.
Consumidores, se comportem para que as decisões das empresas reflitam positivamente a favor da vida.
**As opiniões expressas e os dados apresentados em artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento dos editores do Conecta Verde.



























