O futuro da reciclagem no Brasil depende de um tripé integrado
Por Rafael Filgueira*
Reciclar é essencial para reduzir a pressão sobre os recursos naturais, diminuir a poluição e gerar inclusão social. A atualidade, no entanto, nos impõe um paradoxo desafiador. Ao passo que temos a sensação de avanço de consciência com relação ao tema, esbarramos em estudos, como da Circle Economy, em conjunto com a Deloitte, que apontou para queda na circularidade global nos últimos anos: em todo o planeta, somente 6,9% dos materiais têm origem secundária, ou seja, provenientes de resíduos recuperados. A mensagem foi clara: estamos consumindo mais recursos do que conseguimos reinserir nos ciclos produtivos.
Para destravar essa agenda de vez, não há outro caminho se não estimular o pilar econômico para que seja o impulsionador dos campos ambiental e social. Sem que a atividade seja competitiva e financeiramente atrativa, a economia circular não atingirá todo seu potencial pleno.
Na seara da reciclagem, este cenário encontra explicação também nos custos do processo, que acabam onerando diferentes elos da cadeia. A recuperação de materiais reciclados passa pela coleta, triagem e beneficiamento, para posterior envio a indústria. Neste caminho existem elos que investem em infraestrutura e capital humano como, por exemplo, cooperativas e aparistas.
É nesse ponto que políticas públicas se tornam um vetor fundamental para o apoio da cadeia em sua plenitude. Sem um estímulo adequado, a reciclagem tende a perder espaço frente a alternativas mais baratas, ainda que menos sustentáveis.
O Brasil tem empenhado esforços neste caminho, é bem verdade. A Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR) é uma proposta bastante interessante, pois permite que empresas privadas façam investimentos em projetos de reciclagem por meio do abatimento de impostos. Além disso, foi lançada a Estratégia Nacional da Economia Circular, que se mostra um sinal de avanço, mas que ainda carece de aprofundamento de objetivos e metas.
Além disso, tramita na Câmara dos Deputados a chamada PEC da Reciclagem (34/2025), cujo foco é dar mais competitividade para catadores, cooperativas e indústrias por meio da isenção e creditamento de impostos na reciclagem. Objetivamente, o Projeto de Lei assegura que a venda de resíduos e materiais reciclados seja isenta de contribuições de PIS/COFINS.
Aliado a isso, é importante robustecer os esforços de educação ambiental. Campanhas que conscientizam a população sobre a importância da separação dos resíduos recicláveis são fundamentais. Afinal, o cidadão precisa entender que por trás de cada embalagem reciclada há um sistema complexo, custoso e que envolve milhares de trabalhadores.
Trata-se de um conjunto de ações que envolve esforço do poder público, avanço do tema dentro da iniciativa privada, que tem a responsabilidade de desenvolver produtos pensando na circularidade, e conscientização da sociedade civil.
É uma engrenagem complexa, mas que não funcionará adequadamente se seu motor principal não funcionar: o pilar econômico. O pilar social — representado pelo trabalho de associações e cooperativas de catadores — só poderá se fortalecer se a cadeia estiver economicamente equilibrada; o pilar ambiental, por sua vez, potencializa-se se houver escala e viabilidade financeira.
Portanto, o futuro da reciclagem no Brasil depende de um tripé realmente integrado. Mas é pela via da valorização econômica que será possível alcançar taxas mais robustas de reciclagem, pavimentando o caminho para uma economia circular sólida, capaz de unir competitividade, inclusão social e responsabilidade ambiental.
**As opiniões expressas e os dados apresentados em artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento dos editores do Conecta Verde.
























